segunda-feira, 30 de maio de 2016

Traduzir

E não tem palavras 
que traduzam
o intraduzível. 

Quando o gritar
é cada vez mais 
necessário,
há o escapar. 

O escapar me vem, 
e de todas as formas, 
sem achar a quem. 

A catarse está ai
sem destino a encontrar. 
Em toda direção, 
estou a jorrar. 

As palavras vão sangrar
do meu interior
e então, sem pudor, 
já não irei mais pensar. 

sábado, 19 de março de 2016

Dos contrastes,redenção e o não querer.




A capacidade de amar quem nos odeia e odiar quem nos ama talvez seja a mais humana possível: denuncia uma vontade de aceitação insaciável e a capacidade de destilar ódio em qualquer recipiente.O inferno é o merecido por quem fez mal ou até quem meramente não merece,e a única opção na mesa não é nenhum dos nove infernos concêntricos metafísicos,e sim o inferno que se vivencia diariamente enquanto o organismo ainda respira.É de bom grado engolido o desejo de morte pelo desejo que a pessoa desfrute da amarga longevidade,e prove a cada dia o caos materialista,de forma democrática -familiares,amigos,amantes-não há quem escape.A família goza de um merecimento amplificado,já que o sangue que une também é o sangue que afasta.Mas a entrega total é para o amante,e por mais pessimista que seja,um dia as memorias ruins fazem sombra sobre as boas e o mais difícil de se odiar se torna ,enfim,possível.

Alugaria um trem para que todos fossem para o inferno;ou melhor,permanecessem por aqui e eu subisse a bordo do trem:um único passageiro em fuga.

É exatamente por ser capaz de odiar quem o ama,que o homem sofre de amor por quem o odeia;sacrifício equivalente.De mendicância de amor minha experiência também possui corpo e sustância.Não é a intenção minha chorar sobre uma folha,e sim expor assunto universal que pouco se fala e muito se sente.A solidão infindável é avolumada pelo querer de quem nos quer muito distante(quem sabe até a bordo de um trem).
Ódio,amor e solidão:a tripartição da alma humana,com a peculiaridade de que é o amor quem nos deixa continuar apesar dos outros dois.
A primeira experiência de amar alguém que do outro lado apenas nutre ódio é sempre a mais impactante,e é carregada para os relacionamentos vindouros-uma bomba relógio desarmada apenas com o primeiro beijo,a primeira transa,ou que nunca é desarmada-.As sucessivas experiências desse tipo de relacionamento são todas reflexo da primeira,talhada na alma e nunca curada.

Apesar disso,continuo amando como vários que ainda não se perderam no caminho;juntos somos os que percebemos a redenção contida no ato de nutrir afeto,ato revolucionário e perigoso que é tão mais gostoso conforme mais alheio à razão.

domingo, 6 de março de 2016

Mitologia fatalista


Acorrentado por anos
a sentença é decisiva:
subjugar o corpo,
retalhar a mente.

A existência punida,
sem sentido perguntar:
nenhuma razão esclarecida
e a luta não possui cessar.


Os fracos e enfermos profetas 
e suas mil e uma distrações
se prostram em minhas retas,
refletindo a fraqueza dos seus corações.

Nenhuma mitologia
ou metafísica,
só a condução segue
na situação critica.

O prenúncio do seu fim
enfraquece seu reinado
retomando assim
o destino prejudicado.

Verdadeiramente fatal
é a borrada existência
daquele reino animal
desprovido de potência.

Um auto exílio adentrando uma  vida lenta temporariamente necessitada:
é aguardado mais um fim do ciclo lunar 
nos olhos do tigre faminto a antecipar;
e um retorno para uma vida plena -temporariamente suspensa- .

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Andar e (ir) divagar




Andar depressa,não devagar,
é a diferença
entre ir
e divagar.

Um reflexo no turvo espelho
que exibe  comportamentos,
o indicador de propósito está no vermelho
mas insistem em velhos argumentos.

Não há algo claro,
só resta uma luz no escuro,
necessitam de amparo
enquanto mascam o amargo orgulho.

Há quem acuse de ir na contramão
um pequeno ponto veloz
que rompe o mar de indecisão:
tudo que ele vê é um farol na escuridão.

Um claro ato desafiador,
nega a rendição ao estupor.
Sintoma de se curvar
é incisivamente reprovar.

Ora,se há uma diferença entre andar e se locomoverem
deve ser algo para no minimo tomar-se nota;
reproduzida em laboratório de múltiplos viveres
e talvez a vida deixe de ser tardiamente percebida como mera anedota.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sobre o porque de nunca perguntar a alguém sobre o que a criação artistica dele fala

Porque ás vezes é um espasmo involuntário
intrínseco ao interior mais profundo,
E mesmo que se assemelhe a um desvario
é a coisa mais sensata do mundo
                                                            [mesmo que o mundo particular desse autor


Pode não dizer nada a você
ou para o ''grosso'' público,
mas a quem se relacione
e entenda perfeitamente

o que tentam dizer

aqueles versos
aqueles traços
aquelas cores
aqueles ritmos
aquelas dores

O grito máximo existencial
a ciência não explica,
quiçá é ele o tal
que nossa vida dignifica.

Ser arte
de vanguarda ou tradição
é uma forma metafísica
de expor o coração.


“Não há nada para escrever. Tudo o que você precisa fazer é se sentar em frente de sua máquina de escrever e sangrar”
 – Ernest Hemingway

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Sobre a noção da morte e porque devemos altera-lá




As pessoas,principalmente por aqui tem a noção da morte como uma vaga e distante possibilidade,e eu não serei hipócrita de me colocar acima disso:se estou em casa e me sentindo relativamente bem,estou seguro,nenhuma intempérie da vida me alvejará.
Entretanto,ao pegar um ônibus,ao ir comprar algo na padaria ou mercado mais próximo,andar na rua,ir a um show,o que for;se estou lá fora já prevejo inúmeras possibilidades.Às vezes até em casa,mesmo uma mudança de ânimo incontrolável  ou uma notícia na televisão deixa-me indagar a possibilidade de deixar esta ''dimensão'',por causa natural ou pela ação do meu tão amado mais próximo.

Mas essa forma de pensar está profundamente errada,em seu âmago,em seu cerne.As pessoas que vejo ao  pegar um ônibus,ao ir comprar algo na padaria ou mercado mais próximo,andar na rua,ir a um show,o que for, provavelmente estão cientes de que qualquer um de nós pode morrer daqui a 10 segundos,10 minutos,1 hora,1 ano,10 anos...Apenas não percebem que a morte se apresenta em todas as formas e aspectos: ela está diluída e escondida ao nosso redor,nos cercando.Ela não se apresentará de forma violenta,destruindo tudo em seu caminho pois ela já está ao nosso lado como companheira,e combate-lá é inútil.


As pessoas que vejo na rua ao pegar um ônibus,ao ir comprar algo na padaria ou mercado mais próximo,andar na rua,ir a um show,o que for,acusariam-me de louco,depressivo,herege,hipocondríaco,insatisfeito e do topo de sua certeza ansiosamente me apresentariam o caminho da igreja ou do manicômio se eu partilhasse essa ideia tão lúgubre.


Eu não veja essa ideia como pessimista,mas sim como otimista pois livraria nossa cabeça inebriada pelo medo tamanho construído em torno dessa noção,já que apenas tememos aquilo que é estranho e distante da nossa realidade.O medo que a sociedade constrói não é de algum acontecimento em si,e sim da sombra desse acontecimento,que se projeta maior conforme o imaginário popular a alimenta.Ao despender uma energia menor por deixar de combater um fato inevitável,o homem estaria livre de mais uma amarra para viver de forma capaz e plena enquanto nossos pulmões ainda se enchem de ar.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Resistência

(feito especialmente para um trabalho)



Clarice diz que grita
pois há o direito ao grito,
mas nos tempos de hoje
qual será o grande conflito?

E o ódio latente apenas cresce...

Alguma coisa está fora da nova ordem mundial,
talvez o material em detrimento do nosso pessoal.
Dessensibilizados e imensamente iludidos
enquanto assistimos amores sendo destruídos.

E o ódio latente apenas...

A massa é apenas uma massa,
e antes que possam obstruir,
é até melhor que viva isolada
e nem invente de nos retruibuir.


E o ódio é latente...

Mas o operário,o lavrador,
valem tanto quanto o engenheiro,doutor.
Alienar muitos por capricho de outros
é a forma de valer a lei de poucos.


E o odio é ...

Monarquia,República Velha,Ditadura,
de débitos vivem a oligarquia.
Um arcaísmo que perdura
não seria diferente na minha Bahia

E o odio..

As tarifas separam a plebe da sua própria cidade,
o que não é desviado
é o pouco que é reaplicado e entregue como caridade
e nem um pouco é aproveitado.

E o odio latente não é mais (latente)

Ônibus?
Molotov

Spray?
Vinagre

Patrimônio?
Depredação

Representantes?
Traídores

Repressão?
Resistência

Cidade?
Tempestade